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Mudanças Climáticas, El Niño e o Futuro da Amazônia: Confira os Destaques do 6º Episódio do Podcast Fala Wepainung

O sexto episódio do podcast Fala Wepainung trouxe para o centro do debate um dos temas mais urgentes e desafiadores da atualidade: "Mudança climática e a preservação da floresta: ações para um futuro sustentável".

Apresentado por Sérgio de Andrade, comunicador do projeto, o programa reuniu especialistas para analisar os impactos dos eventos climáticos extremos no Amazonas, discutir estratégias práticas de restauração ecológica e apontar caminhos para a sociobioeconomia regional.

Os convidados deste episódio foram Willy Hagi, meteorologista e consultor em ciência de dados climáticos; Dra. Ananda Matos, engenheira florestal, doutora em Clima e Ambiente, atuante no Instituto IPÊ com restauração e conservação ambiental; Valdiek Menezes, gerente do Projeto Wepainung.

O Mecanismo do Super El Niño: Parâmetros, Projeções e a Correlação Direta com a Amazônia

Para compreender o momento crítico vivenciado na região amazônica, o meteorologista Willy Hagi apresentou dados e projeções sobre o comportamento do fenômeno ENOS (El Niño Oscilação Sul), que engloba tanto o El Niño (aquecimento) quanto a La Niña (resfriamento das águas do Oceano Pacífico).

Como explicou Hagi, o El Niño é um fenômeno oceânico com epicentro no Pacífico Equatorial, mas cujos impactos alteram diretamente a circulação atmosférica global, refletindo-se de forma drástica na Amazônia:

“O El Niño não está na Amazônia, o El Niño está no Pacífico. É um fenômeno oceânico que influencia a atmosfera. Dependendo da região, ele pode trazer secas e temperaturas mais altas ou o inverso”, destacou Willy Hagi.

O fenômeno é monitorado em categorias que vão de fraco, moderado, forte a muito forte. Quando a anomalia de temperatura da água ultrapassa os 2 °C acima da média, o evento entra no patamar de “Muito Forte”, popularmente chamado de Super El Niño.

Após a cheia histórica de 2021/2022, que foi sob influência de La Niña, e a seca histórica de 2023/2024, a Amazônia volta a enfrentar um ciclo de El Niño extremamente severo.

Willy lembrou que o Super El Niño de 2015/2016 ficou conhecido na literatura científica como o El Niño Godzilla devido à sua força. As projeções atuais indicam um cenário ainda mais intenso, podendo se consolidar como o El Niño mais forte da série histórica registrada nos últimos 150 anos.

“A expectativa é que não só seja um Super El Niño, mas que supere os outros Super El Niños do passado. É muito possível que a gente esteja indo para o El Niño mais intenso que temos registros em mais de 150 anos”, alertou o meteorologista.

Por que o El Niño Trava as Chuvas e Prolonga as Secas na Amazônia?

Na física do clima, a formação de nuvens exige a convergência e subida do ar úmido. O El Niño atua justamente como uma força contrária a essa dinâmica, inibindo a formação de nuvens de chuva.

Mesmo quando a região amazônica entra no período chuvoso, a partir de setembro/outubro, o El Niño provoca um período chuvoso deficiente. Em vez dos índices normais acumulados (ex.: 300 mm de chuva), a precipitação cai para patamares irrisórios (ex.: 50 a 100 mm de chuva).

Como o oceano demora a esfriar, o processo de decaimento do fenômeno é lento, fazendo com que a Amazônia emende múltiplos semestres de escassez de água e sucessão de dias extremamente quentes (temperaturas acima de 35 °C).

Essa escassez de chuvas é agravada localmente pelo desmatamento, queimadas e pela ilha de calor de centros urbanos como Manaus, que alteram a microfísica das nuvens e reduzem a umidade emitida pela própria vegetação.

Os Desafios da Restauração Ecológica e da Logística no Campo

As incertezas e os extremos do clima impactam diretamente as ações de campo e a implementação de Sistemas Agroflorestais (SAFs). Durante o episódio, Valdiek Menezes explicou a fisiologia das mudas e como o calor extremo afeta o plantio.

Quando uma muda sai do viveiro, um ambiente que é protegido com irrigação e sombrite, e vai para a área degradada sob sol forte, ela fecha os estômatos (responsável pelas trocas gasosas) para evitar a perda de água. No entanto, ao fazer isso, a planta deixa de absorver carbono e paralisa a fotossíntese:

” Com a alta temperatura, ela fecha o estômato e não faz fotossíntese. Fica aquela briga entre os cientistas: na seca, a planta morre por sede ou por fome? Independente da causa, ela passa necessidade e não cresce”, explicou Valdiek Menezes.

Para enfrentar esse cenário, as equipes do projeto precisam reorganizar o cronograma, estendendo a permanência das mudas nos viveiros de 3 para até 6 ou 9 meses e aplicando a técnica de rustificação (exposição gradual das mudas ao sol direto antes do plantio).

A Realidade dos Rios e do Acesso às Comunidades

A Dra. Ananda Matos compartilhou imagens e relatos marcantes dos desafios enfrentados na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga Conquista, no Baixo Rio Negro. Durante a seca, o recuo drástico dos rios transforma igarapés navegáveis em extensos bancos de areia e lamaçais.

Não existe restauração sem quem vive no território fazendo junto com a gente todas as etapas da cadeia. Mas imagine o desafio dos comunitários em passar por seis ou sete meses de período seco, tendo que carregar suprimentos e água potável por longas distâncias a pé”, destacou Ananda Matos.

A engenheira florestal relatou ocasiões em que as equipes precisaram abrir caminhos a pé na mata fechada, atravessar trechos de lama e remar pequenas canoas por mais de quatro horas sob sol escaldante devido à quebra de motores na areia do rio seco.

Sociobioeconomia e Fortalecimento Comunitário

Diante da crise climática recorrente, a manutenção da floresta em pé depende diretamente do fortalecimento socioeconômico das populações tradicionais e indígenas. Os convidados defenderam a consolidação de uma “cesta da sociobio”, promovendo a diversificação do uso da terra e a geração de renda contínua ao longo de todas as estações do ano.

Iniciativas mencionadas incluem:

  • Fortalecimento de viveiros comunitários para venda de mudas e integração com o turismo sustentável;
  • Manejo e comercialização de produtos não madeireiros, como cumaru, andiroba, copaíba, tucumã e outros;
  • Implementação de Sistemas Agroflorestais (SAFs) que aliam espécies de rápido retorno com árvores de valor econômico e ecológico.

Valdiek Menezes desmistificou a ideia de que o desmatamento gera progresso econômico, defendendo a união entre a ciência, o saber tradicional e a comunicação acessível:

“Temos um mito de que o desmatamento traz riqueza, mas se você olhar o PIB dos municípios que mais desmatam, não há essa relação. O que precisamos é alinhar a nossa biodiversidade gigante com a ciência, a economia e a parte social. Precisamos adaptar o nosso estilo de vida e trazer a ciência de forma palatável para quem está na ponta”, concluiu Valdiéck.

A conversa completa sobre o El Niño, os dados meteorológicos da Amazônia, as estratégias de restauração florestal e as histórias do campo está disponível no canal do projeto no YouTube.

Acesse o link e assista: Podcast Fala Wepainung – Episódio 06 no YouTube

Sobre o projeto

A ação integra o Projeto Wepainung – Proteção e Sustentabilidade da Terra Indígena Andirá-Marau, realizada pela Associação Sementes da Amazônia com apoio da Petrobras, por meio do Programa Petrobras Socioambiental, valorizando o lazer infantil, a cultura e a inclusão social como caminhos para o fortalecimento comunitário.

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